Herculano Pires
"Não façamos do Espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construí-lo segundo o modelo dos mundos superiores que esplendem nas constelações. Estudemos a Doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é nossa tarefa."
Com estas palavras, sempre atuais, iniciamos estes breves comentários sobre J. Herculano Pires que, como bem se pode ver no texto acima, conclama-nos ao trabalho.
Este valoroso trabalhador que fez de sua vida um exemplo de dignidade, trabalho, estudo, pertinácia e amor, desconheceu as fronteiras que limitam o homem médio e, incansavelmente, dedicou sua vida em prol da divulgação à posteridade de valiosas e vastas obras de gêneros literários diversos, a maioria baseada no Espiritismo, que se encontram elencadas em ordem cronológica em seu livro "Ciência Espírita e Suas Implicações Terapêuticas".
Dono de uma cultura ímpar além de escritor renomado, foi brilhante conferencista e crítico severo e austero, em defesa dos princípios basilares da Doutrina e da essência de sua pureza.
Nascido na cidade de Avaré/SP, em 25 de setembro de 1914, retornou à pátria espiritual em 9 de março de 1979.
Desde cedo J. Herculano Pires mostrou seus dotes literários, publicando seu primeiro livro de contos aos 16 anos de idade. Bacharelado e licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, exerceu a cátedra durante muitos anos, tendo sido membro ativo de vários Institutos de Filosofia, Psicologia e Parapsicologia, matérias que lecionou nos cursos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e Diretor da União Brasileira de Escritores, além de Presidente do Sindicato dos Jornalistas. Em sua carreira jornalística exerceu todos os cargos possíveis dentro da imprensa paulista e paulistana.
Iniciou-se na Doutrina espírita através do raciocínio, da necessidade de entender os fenômenos que desde cedo o acompanhava. Assim como Eurípedes Barsanulfo, começou lendo O Livro dos Espíritos, e, segundo ele, não mais parou de estudá-lo.
No "Diários Associados", de São Paulo, manteve durante quase 20 anos uma coluna espírita, usando o pseudônimo de Irmão Saulo; ainda no mesmo jornal, durante três anos, escreveu uma coluna juntamente com Francisco Cândido Xavier, da qual resultaram as obras: Chico Xavier Pede Licença, Na Era do Espírito, Astronautas do Além e Na Hora do Testemunho.
Escreveu uma trilogia denominada Caminhos do Espiritismo, onde lançou a tese da Filosofia Interexistencial, trilogia esta que se iniciou com o romance Barrabás, seguindo-se Lázaro e Madalena, onde expõe a tese da consciência pagã para a consciência cristã, fundada nas três figuras evangélicas que dão nome aos livros.
O Professor Jorge Rizzini, que conheceu e conviveu durante muitos anos com J. Herculano Pires, fala dele com a admiração de quem reconhece o trabalho admirável feito por ele em prol do Espiritismo. Dizia Herculano Pires, conta-nos Rizzini: "Quem assume responsabilidades de divulgação e orientação no campo doutrinário não pode esconder a cabeça na areia quando a tempestade ruge."
No Correio Fraterno do ABC, edição de abril de 1979, Rizzini assim escreve sobre Herculano Pires: "Toda vez que o movimento espírita se viu encoberto pelas nuvens umbralinas, o gigante saiu de peito aberto a campo e afastou-as, às vezes com um sopro só. Todos se recordam de seus debates na TV e na imprensa com médicos, padres, pastores, jornalistas, em defesa dos princípios espíritas e de médiuns de sua confiança, como Zé Arigó."
No famoso caso das materializações de Uberaba, quando a revista "O Cruzeiro", dos "Diários Associados", promoveu um verdadeiro escândalo em todo o País, por pertencer à rede como empregado, J. Herculano Pires não pôde apresentar sua réplica, porém orientou o movimento doutrinário através de sua coluna espírita e folhetos. A defesa da Causa Espírita foi feita por Jorge Rizzini, com os materiais sobre as materializações de Uberaba, que lhe foram fornecidos por Chico Xavier e Waldo Vieira.
Quando dos debates pela TV, algumas pessoas do movimento entendiam que Herculano Pires deveria ser mais paternal com seus opositores, ao que o Professor Rizzini contradiz dizendo: "É curioso! Como poderia o mestre tornar-se suave ao ver a Doutrina massacrada perante milhões de telespectadores? Nem Jesus agiu com mansidão perante a petulância dos fariseus vaidosos", escreveu Herculano Pires. Professor Rizzini conclui sua argumentação sobre o tema citando as palavras do próprio Herculano Pires: "Nem Kardec deixou de defender a Doutrina em nome de um falso conceito de fraternidade, e defendê-la com firmeza e energia, empregando as palavras devidas. As sensitivas que murcham ao ser tocadas não são flores do jardim espírita. Porque Espiritismo requer virilidade e franqueza de seus adeptos, o sim, sim e não, não do Evangelho, para impor-lhe neste mundo de ambiguidades e comodismo."
Àqueles companheiros mais jovens na Doutrina e que não tiveram conhecimento dos debates acima referidos, não podem avaliar o quanto foi importante a participação de Herculano Pires naquele evento que sobremaneira divulgou a Doutrina e o movimento Espírita.
José Herculano Pires era um homem simples, hábitos singelos e sempre de bom humor. Acolhia com amor e carinho àqueles que o procuravam para uma palavra amiga e conselhos para seus problemas. Por vezes, até de madrugada, estava ele a ter com estes irmãos que buscavam em suas palavras o lenitivo para seus desassossegos.
E foi numa madrugada destas, em que estava escrevendo em sua velha máquina, que seu coração cessou de bater, pois que seu regresso à pátria espiritual era necessário.
A lacuna deixada pelo valoroso mestre não pode ser preenchida, porém as lições, o zelo pela Doutrina e a certeza de que vale a pena seguir seu exemplo, foi seu maior legado à Causa.
José Carlos Branco